Java

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Nicolau Alexandrovich, Czarevich da Rússia


O grão-duque Nicolau Alexandrovich, o czarevich, era um jovem alto e bonito, embora delicado e de constituição fraca. Tinha herdado o temperamento do pai e a mente interrogativa da mãe. Quando eram crianças, o czarevich e o seu irmão mais novo, Alexandre [futuro czar Alexandre III, criaram o seu mundo de fantasia, 'Mopopolis', retratado nos seus desenhos a tinta e caneta, uma cidade habitada por 'Mopses' ou cães pug. Durante a Guerra da Crimeia, os ingleses passaram, naturalmente, a ser detestados na corte russa, mas os rapazes tiveram a sensatez de não tornar a sua sátira demasiado óbvia e resolveram retratar os seus inimigos simplesmente como bulldogs. Como era herdeiro do trono, Nicolau era por vezes tratado com severidade pelo pai que, surpreendentemente, não foi tão compreensivo com ele como o seu pai tinha sido consigo. Nicolau, um jovem sensível que se parecia muito com o pai durante a adolescência, por vezes era tratado com impaciência por ele por este o considerar um pouco efeminado. Era provável que o czar o quisesse preparar de forma adequada para a vida dura que o esperava, mas se tal era o caso, mostrou-de de forma muito brusca. A sua mãe, que achava que o filho tinha uma inteligência semelhante à sua, dedicou-se tanto às suas necessidades que às vezes quase parecia que se esquecia dos seus outros filhos. Era uma criança avançada e a sua inteligência desenvolveu-se muito depressa, levando-o a fazer perguntas sérias que, ao mesmo tempo, impressionavam e assustavam os seus tutores. O seu governador, o conde Stroganov, referiu mesmo que a sua maturidade de pensamento e expressão quase pareciam pouco saudáveis numa pessoa tão nova.

Nicolau Alexandrovich com a sua mãe, a czarina Maria Alexandrovna
Em Setembro de 1864, o czarevich completou vinte-e-cinco anos de idade. O jovem precoce tornou-se num adulto estudioso com os conhecimentos liberais do pai, grandes interesses artísticos e muita graciosidade. No geral, tinha muito poucas parecenças com o resto dos seus irmãos que eram mais agitados. Uma certa fragilidade no seu físico denunciava a sua saúde delicada. Durante a adolescência, segundo alguns relatos, Nicolau desafiou um dos seus primos, o príncipe Nicolau de Leuchtenberg, para uma luta amigável durante a qual foi atirado ao chão e não se conseguiu mexer durante alguns minutos. Segundo outro relato, o czarevich fracturou a coluna depois de cair do cavalo na escola de cavalaria de Czarskoe-Selo. Qualquer que seja a verdadeira versão da história, estes ferimentos voltariam a atormentá-lo alguns anos depois. 


Nicolau Alexandrovich
No verão, o rei Cristiano IX da Dinamarca recebeu oficialmente uma proposta de casamento em nome do czarevich, para a sua segunda filha solteira, a princesa Dagmar. O rei deu o seu consentimento, colocando a única condição de deixar a sua filha decidir o que queria por si própria depois de o conhecer. O czarevich recebeu uma fotografia dela e passou a trazê-la sempre consigo a partir daí. Apesar de não ser tão bonita como a irmã mais velha, a princesa Alexandra, que se tinha casado com o príncipe de Gales no ano anterior, Dagmar tinha mais personalidade, uma sagacidade mais acentuada e interesses mais variados, bem como o mesmo gosto em termos de estilo e paixão por roupas bonitas. 


Dagmar da Dinamarca, futura czarina Maria Feodorovna da Rússia

Acompanhado do conde Stroganov e uma grande comitiva, o czarevich partiu da Rússia em Junho de 1864 e encontrou-se com a família real dinamarquesa em Fredensborg, onde a princesa brilhou com a frescura dos seus dezasseis anos. Os dois jovens foram pressionados a esperar mais algum tempo e, entretanto, o czarevich partiu para Berlim para assistir a manobras militares com o pai. Na noite anterior sentiu fortes dores nas costas e apesar de se sentir mal insistiu em cumprir os seus compromissos, mas depois de passar onze horas a cavalo, chegou ao fim do dia exausto. Esperando que as dores não significassem nada pior, regressou a Copenhaga para pedir a princesa Dagmar em casamento. Entre grandes festejos familiares, foi anunciado que os dois se casariam na primavera seguinte, depois de Nicolau terminar o seu longo programa de visitas culturais pelo resto da Europa.

Fotografia tirada para celebrar o noivado de Nicolau Alexandrovich e Dagmar da Dinamarca
Em Itália, Nicolau interrompeu o itinerário para visitar a mãe, que tinha trocado o inverno rigoroso de São Petersburgo por um período de férias na Riviera. (...) A dor nas costas tinha voltado em força e o jovem ficou de cama durante várias semanas enquanto recebia tratamento para um abcesso. Oficialmente, o único mal do qual o czarevich padecia era reumatismo e talvez um pouco de malária, mas as dores de cabeça e enjoos persistentes levaram a família a temer o pior. Nicolau estava demasiado fraco para regressar a casa e a havia discordância entre os médicos e especialistas em relação à sua doença começava a causar alarme.


No inicio de 1865, era evidente que o czarevich estava a perder a sua batalha. Alojado na Villa Diesbach, em Nice, foi examinado por dois médicos que não viram nada de perigoso no seu estado de saúde, mas em Março queixou-se que o barulho das ondas na costa não o deixava dormir. Uma vez, quando o mar estava meramente a enrolar-se suavemente na areia, esta sensibilidade extrema aos sons foi vista como um mau sinal. Nicolau foi levado mais para o interior, para a Villa Bermond, mas quando chegou a Páscoa era óbvio que não se ia salvar. Muitos parentes desgostosos, incluindo a princesa Dagmar e membros da família dela, dirigiram-se para o seu leito de morte. A czararina não o deixava por nada e as suas damas-de-companhia estavam tão histéricas que o conde Stroganov ordenou bruscamente que todos aqueles que não se conseguissem controlar deviam sair do quarto imediatamente. Entre elas encontrava-se a princesa Maria Meshchersky que se dizia ter uma relação amorosa com o grão-duque Alexandre [Alexandre III]. Se a senhora tinha ainda esperanças de se tornar esposa do grão-duque ou seguir o mesmo caminho do irmão destituído da czarina, o príncipe Alexandre de Hesse [que se casou com uma plebeia, criando o ramo Battenberg], agora compreendia que, a não ser que os médicos fizessem um milagre, essas esperanças não levariam a nada. Quando o czar chegou à villa, a czarina acordou Nicolau para o avisar. Nicolau beijou-lhe a mão, segurando um dedo de cada vez e perguntou-lhe o que faria ela sem ele. Uma vez que foi a primeira vez que ele falou na sua morte, o pai ajoelhou-se na cama, chorando silenciosamente.


No dia seguinte, Dagmar praticamente não deixou o seu lugar junto ao leito, arranjando as almofadas e acariciando-lhe o cabelo, falando sempre suavemente. (...) Na noite de 24 de Abril, ao mesmo tempo que os marinheiros russos e infantaria e cavalaria francesa organizavam uma vigilia silenciosa no lado de fora da vila, a família, os criados e médicos enchiam o quarto. Um grupo de clérigos cantava rezas para o moribundo à medida que o jovem magro e exausto de vinte-e-um anos se apagava.

John Van Der Kiste - "The Romanovs 1818-1959"

Sem comentários:

Enviar um comentário