Java

domingo, 17 de julho de 2011

A Morte dos Romanov - 17 de Julho de 1918


Na noite de 16 de Julho, entre as sete e as oito da noite, quando o meu turno tinha acabado de começar, o comandante Yurovsky (chefe do esquadrão de execução) ordenou-me que fosse buscar os revolveres Nagan aos guardas e que os levasse até ele. Recolhi doze revolveres dos sentinelas e de outros guardas e levei-os ao escritório do comandante.

O Yurovsky disse-me, "Temos de os matar hoje à noite, por isso avisa os guardas para não se assustarem se ouvirem tiros". Percebi então que o Yurovsky tinha todas as intenções de matar a família inteira do czar, bem como o médico e os criados que estavam com eles, mas não lhe perguntei onde nem quem tinha tomado essa decisão. Cerca das dez da noite, seguindo a ordem de Yurovsky, informei os guardas para não se assustarem caso ouvissem disparos.

Cerca da meia-noite, o Yurovsky acordou a família do czar. Não sei se lhes disse a razão pela qual tinham sido acordados ou para onde seriam levados, mas tenho a certeza que foi o Yurovsky que entrou no quarto ocupado pela família do czar. Cerca de uma hora depois, a família inteira, o médico, a criada da czarina e os criados do czar levantaram-se, lavaram-se e vestiram-se.

Pouco antes de o Yurovsky ir acordar a família, dois membros da Comissão Extraordinária (do Soviete de Ekaterinburg) chegaram à Casa Ipatiev. Pouco depois da uma da manhã, o czar, a czarina, as suas quatro filhas, a criada, o médico, o cozinheiro e os criados saíram dos seus quartos. O czar levava o filho nos braços. O imperador e o herdeira estavam vestidos de uniforme e levavam capas. A imperatriz, as suas filhas e os outros siguiam-nos. O Yurovsky, o seu assistente e os outros dois que mencionei em cima, membros da Comissão Extraordinária acompanharam-nos. Eu também estava presente.

Enquanto estive presente, nenhum membro da família do czar fez perguntas. Não choraram nem se lamentaram. Depois de descer as escadas da Casa Ipatiev para o primeiro andar, fomos para o quintal e, daí, entramos na segunda porta (do lado do portão), chegando à cave da casa. Quando chegamos à sala, adjunta à dispensa e com uma porta fechada atrás, o Yurovsky ordenou que se trouxessem cadeiras e o seu assistente trouxe três cadeiras. Uma delas foi dada ao imperador, uma à imperatriz e a terceira ao herdeiro.

A imperatriz sentou-se perto da parede, junto à janela, perto do pilar negro do arco. Atrás delas estavam três das suas filhas. Conhecia bem as caras delas porque as via todos os dias quando elas iam passear pelo jardim, mas não sabia como se chamavam. O herdeiro e o imperador sentaram-se lado a lado, quase a meio da sala. O doutor Botkin estava atrás do herdeiro. A criada, uma mulher muito alta, estava à esquerda da porta que dava para a dispensa, ao seu lado estava a filha mais nova do czar (Anastásia). Os outros dois estavam encostados à parede, à esquerda da porta de entrada para a sala.

A criada levava uma almofada. As filhas do czar também tinham almofadas pequenas com elas. Uma delas foi colocada na cadeira da imperatriz e outra na do herdeiro. Parecia que adivinhavam o seu destino, mas nenhum deles falou. Neste momento entraram onze homens na sala: O Yurovsky, o assistente, dois membros da Comissão Extraordinária e quatro operativos da Cheka (polícia secreta).

O Yurovsky ordenou-me que saísse, dizendo: "Vai até à rua, vê se está lá alguém e espera para ver se se conseguem ouvir os tiros." Saí para o quintal, que era protegido por uma vedação, mas antes de chegar à rua ouvi disparos. Regressei imediatamente à casa, só tinham passado dois ou três minutos, e quando entrei na sala onde a execução tinha acontecido vi que todos os membros da família do czar estavam deitados no chão, gravemente feridos ou mortos. O sangue corria como um riacho. O médico, a criada e os dois serventes também tinham sido atingidos. Quando entrei o herdeiro ainda estava vivo e gemia um pouco. O Yurovsky foi até ele e disparou mais dois ou três tiros contra ele. Depois o herdeiro ficou quieto.

11 comentários:

  1. Já li dezenas de vezes, descrições daqueles últimos momentos. Sinto calafrios em todas elas.
    E neste dia, é constante esta sensação de revolta.
    Obrigada pelo vosso trabalho em manter a memória dos Romanov bem viva....

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  2. Meu Deus, que blog incrível! Sempre me interessei pela história da família Romanov, mas nunca encontrei alguém que se importasse. E, enquanto procurava o filme "Anastasia - The Mystery of Anna" para download, encontro seu blog. Eu realmente adorei o seu trabalho. Parabéns!

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  3. Acompanho seu blog há muito tempo. Me interesso pelo tema desde a adolescencia, mas é bastante dificil encontrar livros a respeito. A descrição das mortes é medonha, brutal e sem sentido.

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    1. Eu gosto dos livros da escritora inglesa Helen Rappaport ela tem uma narrativa excelente, não recomendo seus livros para os de esquerda.

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  4. Bevindas Carolina e Susana. Também acompanho este blog há já uns aninhos valentes, espero que este tema seja o mote para muitos comentários e partilha de opiniões.

    Beijinhos

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  5. sempre gostei de "vasculhar" a História e em especial a História do fim trágico dos Romanov...neste blog encontro horas de leitura e aprendizagem. parabéns.

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  6. Meus cumprimentos pelo blog.

    Interesso-me pelos Romanov e fiquei contente com as informações aqui publicadas.

    Fiquei curioso em saber qual a origem do relato acima, quem o teria escrito e como se teve acesso a ele?

    Kildare.

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  7. Se um dia eu tiver um filho o nome dele será Alexei, em homenagem ao herdeiro do trono Alexei Nikolaevich Romanov.

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  8. Li vários relatos sobre os momentos finais da família imperial, inclusive li a biografia de NicolauII e Alexandra mas nunca tinha lido o relato de um dos homens que estavam junto aos executores do crime. Só uma coisa: quem era esse homem? Gostaria de saber o nome dele.

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    1. Boa tarde e obrigada pelo seu interesse! Este relato faz parte das memórias de Mikhail Aleksandrovich Medvedev-Kudrin, um dos soldados responsáveis pela execução.

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